O lobisomem de Prata dos Netos

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O lobisomem de Prata dos Netos
(Texto baseado no filme documentário)

Cruzeiro da Prata, município de Presidente Olegário, é um povoado agradável, aconchegante e habitado por pessoas amáveis, acolhedoras, cheias de boas histórias, muitos mistérios e contos espantosos. São tantas as assombrações que os moradores afirmam terem visto, que é impossível conhecermos a todas.

Tem Lobisomem, Mula sem Cabeça, Almas penadas e muitos outros seres assombrosos esperando a chance de se tornarem conhecidos e famosos.

É provável que uma pessoa caminhando de forma estranha, seja um potencial lobisomem. Falar esquisito ou comer capim, é prova certeira de que o indivíduo se transforma no bicho em noites de lua cheia. Pros mais corajosos, tem até receita pra virar lobisomem; basta vestir a roupa do avesso e dar três cambalhotas dentro da pocilga. O resultado é garantido; se isso não o transformar em lobisomem pra assustar o povo, pelo menos a catinga do chiqueiro vai espantar muita gente.

Tem também os causos de mulheres que ficam paquerando os padres. Elas são amaldiçoadas e viram a Mula sem Cabeça. O esconjuro das tais concubinas de vigários vai desde a noite de quinta-feira até o nascer do sol da sexta-feira. São terríveis animalescas que, além de feias, lançam chamas por um buraco enorme no pescoço onde, costumeiramente, seria a cabeça. Não bastasse todo esse infortúnio, ainda usam ferraduras feitas especialmente pra elas. São perigosas e afiadas e quando dão patadas, podem até matar o infeliz que cruzar seu caminho.

Lázara, mulher corajosa e destemida, nasceu e sempre viveu naquelas localidades. Com veemência, afirma já ter visto essas feras e sobreviveu para contar os detalhes. A primeira vez que encontrou uma criatura, Lázara era ainda criança e morava na fazenda com a família. Certa vez, ela e a irmã foram brincar na pedra perto de um rio que passava no fundo da chácara. Na curva do rio havia uma pequena praia de areia branca onde as crianças costumavam fazer piquenique.

Era quinta-feira e o sol já se punha. Ela e a irmã, cansadas de brincar e nadar, se preparavam pra voltar para casa quando ouviram um rinchado amedrontador. Pensaram que aquilo seria um animal perdido ou ferido, mas quando firmaram a vista, lá estava a terrível aparição. Parecia uma mula que tinha, em lugar da cabeça, uma tocha de fogo. Amedrontadas, correram pra casa e contaram tudo pro pai. Ele mangou das filhas, não acreditou em nada e ainda disse que elas estavam inventando lorotas.

No dia seguinte, quando saiu pro trabalho, ao passar pela prainha na curva do rio, o pai viu os rastos da mula. Parecia mesmo ser o animal que assustou as filhas. Se ela tinha ou não cabeça, o pai não soube explicar. Havia apenas marcas intrigantes de ferradura na areia fofa. Contudo, na imprecisão, ele nunca mais contestou as meninas.

Se fosse somente o episódio da Mula sem Cabeça, já daria um bom causo, mas a história não parou por aí. Depois de moça, Lázara se casou e foi morar na fazenda Capão Grande, no Pé do Morro, com o esposo. Viviam tranquilos até que numa noite de sexta-feira, quando conversavam animadamente na cozinha, algo passou pela fresta da janela e foi direto ao cocho onde os porcos comiam lavagem. O cheiro era terrível e o bicho uivava feito um lobo acuado.

Ela, corajosa como sempre, quis abrir a janela, mas o esposo não permitiu. Afirmou que essas “coisas’ a gente não vê de jeito nenhum. Assim, se aquietaram dentro da casa enquanto o cachorro latia com uma braveza de dar medo, mas o bicho nem se intimidou. Comeu a tal lavagem o quanto quis e depois foi embora passando ainda pelo galinheiro e no fundo do chiqueiro na tentativa de devorar os leitões e uns franguinhos recém-nascidos.

Os vizinhos de D. Lázara também ouviram os passos da tal criatura, mas ninguém teve coragem de enfrentar o monstrengo. Naquela noite o lobisomem andou por muitos lugares e aterrorizou muita gente, sem, contudo, achar alguém que pudesse derrotá-lo.

Apenas um vizinho, que estava bêbado, quis enfrentá-lo, mas a esposa não o deixou ir alegando que ele não possuía um revólver com balas de prata. Mas o corajoso bêbado, não se dando por vencido, prenunciou, com toda a cachaça que bebera, que no outro dia, alguém viria até sua casa pedir fumo. Aquele que o fizesse seria o lobisomem.

Não deu outra, logo pela manhã um conhecido veio à sua casa pedir fumo emprestado. Era um senhor de meia idade, também morador da comunidade. Sua família, há tempos, afirmava que ele virava lobisomem. Se era verdade ou mentira ninguém pode garantir; coincidência ou não, o fato é que depois da morte desse senhor o lobisomem nunca mais apareceu por aquelas bandas.

Muitos homens até tentaram se passar pela fera. D. Lázara conheceu um desses impostores quando recebeu um senhor esquisito em sua casa. Inquieto e fétido, ele se vangloriava em contar que, se alguém tivesse coragem de colocar uma folha verde em sua boca, ele se transformaria em lobisomem na frente de quem o fizesse.

Lázara até pensou em desafiar o homem pra ver se não passava de um mentiroso, mas ficou com medo de ser atacada. Apesar de o suposto lobisomem jurar que não lhe faria mal algum, ela preferiu não se ariscar. E se esse tal fosse mesmo um lobisomem? Existem tantos por aí! Na dúvida, melhor não brincar com o bicho…

O conto foi inspirado, com alguns adendos do autor, no depoimento da Sra. Lázara Teixeira para o documentário que deu origem ao filme “O Lobisomem de Prata dos Netos” (2019).

Roteiro de André Mendonça.

Entenda a história, confira:
https://poculturaeturismo.com.br/2019/12/31/produtor-olegariense-andre-mendonca-participa-do-programa-to-indo-da-rede-globo/

 

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